Eu despido
Escondemos nossa face na mais profunda tumba
Tememos a exposição, o eu despido cara a cara com o outro
Supondo frágil o relacionamento nu
Tecemos panos e os colorimos, procurando assim
Desviar a atenção do que temos verdadeiramente a oferecer
Como se o pano e a cor pudesse esconder
Quão tolo somos!
E não contentes, travestimos as palavras de significados dúbios
Manipulando-as, reduzindo-as a parâmetros ilusórios
Uma máquina untada para satisfazer arcabouços transitórios
E como uma ave sem pena, nos movemos, envergonhados
Pois uma ave sem pena é repugnante
E nauseante esse viver atormentado
Quão tolo somos!
Colorindo páginas abandonadas
Nem sequer olhamos pros lados, temendo ver a maquiagem escorrendo
O olhar horrendo, assustado, entrar em paranóia
Pisando em cerâmicas quebradas, cacos reajuntados
Em ladeiras vertiginosas, terreno acidentado
Procurando transcender
Como se tudo isso pudesse esconder
Quão tolo somos!
O feixe de nervos e músculos acelera o ritmo
Movimenta-se como um azougue solto no espaço
Foge do abraço, do contato íntimo
Lepra que consome os órgãos, dor lancinante
Como se um ventre estreito expulsasse o feto indesejado
Onde os olhos abertos, mantém o olhar obstinado
Quão tolo somos!
Delícias
Como poderei te amar
Sem exigir que sua face procure a minha
Que o seu corpo encontre o calor do meu?
Como poderei sonhar
Ao encontrar a cama sozinha
Sem os rastros do perfume teu?
Como poderei viver
Se o simples fato de não te ver
Obscurece as tardes ensolaradas?
Como poderei seguir
Ordenar aos pés aonde ir
Se não te encontro mais nas madrugadas?
Talvez as nuvens me confessem
O teu segredo oculto e o endereço
Onde repousa o hálito embriagador
Talvez o céu dos céus apressem
A cura na alegria sem preço
Dessa doença, mal de amor
Então, encontrarei delícias inenarráveis
Consolações inconfessáveis
Um oceano de letras sem ponto final
Então, conhecerei o paraíso prometido
Estendendo o orgasmo incontido
À eternidade rouca de prazer angelical.
Pranto solitário
Dualidade complexa, debilidade e energia
Macho e fêmea, positivo e negativo
Luz e trevas, noite e dia
Bonito e feio, maldade e bondade
E procuram impingir uma figura conformada
Sobre o retrato rasgado em mil pedaços
É o que sou.
Acendo meu rastilho, ateio fogo aos malabaristas
Que tentam me adaptar a rituais ensaiados
Recuso o vôo.
Sou ave indomesticável, tenho meu próprio canto
Rasgo a partitura comum, recuso a ser mais um
Prefiro o encanto do meu pranto solitário
Que a metódica melodia de um canário
Conformado aos instintos coletivos
Desses mortos-vivos que comem o alpiste
Prêmio concedido aos obedientes
Que felizes enchem o papo
Esnobando e ignorando a fome dos diferentes
Que definham, na incorruptível integridade
Recusando o insípido alimento, na verdade
Aguardando o alimento eterno, prometido
Pelo insubordinado Cristo, há dois mil anos.
(Poesias extraídas do livro "Frutos da solidão" de Samuel Rezende)
Escondemos nossa face na mais profunda tumba
Tememos a exposição, o eu despido cara a cara com o outro
Supondo frágil o relacionamento nu
Tecemos panos e os colorimos, procurando assim
Desviar a atenção do que temos verdadeiramente a oferecer
Como se o pano e a cor pudesse esconder
Quão tolo somos!
E não contentes, travestimos as palavras de significados dúbios
Manipulando-as, reduzindo-as a parâmetros ilusórios
Uma máquina untada para satisfazer arcabouços transitórios
E como uma ave sem pena, nos movemos, envergonhados
Pois uma ave sem pena é repugnante
E nauseante esse viver atormentado
Quão tolo somos!
Colorindo páginas abandonadas
Nem sequer olhamos pros lados, temendo ver a maquiagem escorrendo
O olhar horrendo, assustado, entrar em paranóia
Pisando em cerâmicas quebradas, cacos reajuntados
Em ladeiras vertiginosas, terreno acidentado
Procurando transcender
Como se tudo isso pudesse esconder
Quão tolo somos!
O feixe de nervos e músculos acelera o ritmo
Movimenta-se como um azougue solto no espaço
Foge do abraço, do contato íntimo
Lepra que consome os órgãos, dor lancinante
Como se um ventre estreito expulsasse o feto indesejado
Onde os olhos abertos, mantém o olhar obstinado
Quão tolo somos!
Delícias
Como poderei te amar
Sem exigir que sua face procure a minha
Que o seu corpo encontre o calor do meu?
Como poderei sonhar
Ao encontrar a cama sozinha
Sem os rastros do perfume teu?
Como poderei viver
Se o simples fato de não te ver
Obscurece as tardes ensolaradas?
Como poderei seguir
Ordenar aos pés aonde ir
Se não te encontro mais nas madrugadas?
Talvez as nuvens me confessem
O teu segredo oculto e o endereço
Onde repousa o hálito embriagador
Talvez o céu dos céus apressem
A cura na alegria sem preço
Dessa doença, mal de amor
Então, encontrarei delícias inenarráveis
Consolações inconfessáveis
Um oceano de letras sem ponto final
Então, conhecerei o paraíso prometido
Estendendo o orgasmo incontido
À eternidade rouca de prazer angelical.
Pranto solitário
Dualidade complexa, debilidade e energia
Macho e fêmea, positivo e negativo
Luz e trevas, noite e dia
Bonito e feio, maldade e bondade
E procuram impingir uma figura conformada
Sobre o retrato rasgado em mil pedaços
É o que sou.
Acendo meu rastilho, ateio fogo aos malabaristas
Que tentam me adaptar a rituais ensaiados
Recuso o vôo.
Sou ave indomesticável, tenho meu próprio canto
Rasgo a partitura comum, recuso a ser mais um
Prefiro o encanto do meu pranto solitário
Que a metódica melodia de um canário
Conformado aos instintos coletivos
Desses mortos-vivos que comem o alpiste
Prêmio concedido aos obedientes
Que felizes enchem o papo
Esnobando e ignorando a fome dos diferentes
Que definham, na incorruptível integridade
Recusando o insípido alimento, na verdade
Aguardando o alimento eterno, prometido
Pelo insubordinado Cristo, há dois mil anos.
(Poesias extraídas do livro "Frutos da solidão" de Samuel Rezende)